Este é um passo fundamental para o setor energético português. O Despacho n.º 2235/2026 sinaliza uma transição importante: o foco já não está apenas na descarbonização (geração), mas na proteção física e operacional da infraestrutura que transporta essa energia.
A decisão de avaliar o enterramento seletivo de linhas é particularmente relevante. Embora o custo de enterrar cabos de alta tensão possa ser significativamente superior ao das linhas aéreas, o custo social e económico de apagões prolongados causados por incêndios ou tempestades extremas tem-se tornado incomportável.
Aqui está um resumo dos pilares centrais desta iniciativa:
Diagnóstico de Vulnerabilidade
O estudo não será apenas técnico, mas também multidimensional. A DGEG terá de cruzar dados de diversas fontes para criar o mapa de riscos:
- Climáticos: Zonas de maior incidência de ventos extremos e raios.
- Florestais: Áreas com elevada carga combustível e risco de incêndio.
- Sistémicos: Pontos da rede onde uma falha pode causar um efeito dominó no abastecimento nacional.
Comparação de Soluções (Trade-offs)
O despacho exige uma análise pragmática. Nem sempre enterrar é a melhor solução; por vezes, o reforço estrutural (torres mais resistentes) ou a criação de micro-redes pode oferecer uma relação custo-benefício superior para garantir a resiliência.
Integração com o PDIRT e PDIRD
Para que o estudo não fique na gaveta, ele terá de ser compatível com os planos de investimento já existentes:
- PDIRT: Rede de Transporte (gerida pela REN).
- PDIRD: Redes de Distribuição (gerida pela E-Redes e outros operadores).
O impacto no Consumidor e no Mercado
Embora o financiamento possa vir de instrumentos europeus (como o Grids Package), o plano faseado será crucial para evitar uma pressão excessiva nas tarifas elétricas, garantindo que o investimento na “muralha climática” do SEN seja sustentável a longo prazo.
Nota: O prazo de 180 dias é ambicioso dada a complexidade da recolha de dados geoespaciais e climáticos, o que sugere que o Governo pretende integrar estas conclusões já no próximo ciclo de revisão dos planos de rede.
Este despacho é um marco na política energética nacional, pois reconhece que o Sistema Elétrico Nacional (SEN) já não pode ser planeado apenas para a eficiência económica, mas tem de ser desenhado para a sobrevivência climática.
O Mapa de Riscos e Áreas Críticas
A identificação das “áreas críticas” não será apenas sobre onde há mais árvores, mas sobre o risco sistémico.
- Exemplo: Uma linha que atravessa uma zona de alto risco de incêndio e que alimenta um hospital regional ou um centro de dados terá uma prioridade de intervenção superior a uma linha com redundância.
- Cenários Prospetivos: O estudo terá de prever não o clima de hoje, mas o de 2040-2050, onde eventos como a “tempestade perfeita” (ventos de 150 km/h + solo encharcado) podem derrubar torres standard.
Análise Técnica: Ar vs. Solo
Análise Comparativa das Soluções Técnicas
A avaliação comparativa entre linhas aéreas e subterrâneas é o ponto mais sensível do despacho devido aos custos.
O reforço estrutural de linhas aéreas apresenta-se como a solução de menor impacto financeiro imediato. Ao aumentar a resistência mecânica das torres e dos condutores, a rede torna-se mais capaz de suportar ventos extremos. No entanto, esta abordagem mantém uma vulnerabilidade crítica em Portugal: a exposição direta a incêndios rurais e à queda de vegetação, que são as principais causas de interrupções de serviço em cenários de crise climática.
Em contraste, o enterramento total de cabos oferece a proteção máxima contra os elementos. Ao colocar a infraestrutura sob o solo, eliminam-se os riscos de ignição por arco elétrico e a vulnerabilidade a tempestades. O grande desafio reside no custo, que pode ser entre 5 a 10 vezes superior ao das linhas aéreas, além de apresentar uma manutenção muito mais complexa e demorada em caso de avaria interna, o que pode prolongar os tempos de reposição de serviço se não houver redundância adequada.
As soluções híbridas e as tecnologias de resiliência surgem como o caminho intermédio e, provavelmente, o mais viável para o estudo da DGEG. Esta estratégia foca o investimento onde ele é mais necessário — o chamado “enterramento seletivo”. Ao enterrar cabos apenas em áreas de elevadíssimo risco florestal ou em “pontos de estrangulamento” da rede (como vales apertados ou zonas densamente povoadas), consegue-se um ganho de resiliência significativo sem tornar a fatura energética insustentável. Contudo, esta opção exige a construção de terminais de transição, que são pontos tecnicamente complexos e visualmente impactantes onde a linha passa do modo aéreo para o subterrâneo.
O “Grids Package” e o Financiamento
O estudo menciona especificamente o Grids Package da União Europeia. Este pacote de medidas visa acelerar a modernização das redes europeias, facilitando o acesso a:
- Mecanismo Interligar a Europa (Connecting Europe Facility): Para projetos com impacto transfronteiriço ou de grande relevância sistémica.
- Modernização das Tarifas: Propostas para que os reguladores (como a ERSE) permitam que os operadores recuperem investimentos em resiliência, e não apenas em expansão de capacidade.
Cronograma e Governação
O prazo de 180 dias coloca pressão sobre a DGEG para coordenar dados entre o IPMA (clima), o ICNF (florestas) e os operadores REN/E-Redes. O resultado final terá de ser “digerível” para os planos PDIRT (Transporte) e PDIRD (Distribuição), que são os documentos que efetivamente autorizam as obras no terreno.
Ponto de Reflexão: Este estudo poderá ditar o fim do modelo de “custo mínimo” na energia, introduzindo o conceito de “custo de resiliência” na fatura dos portugueses, mas garantindo que o país não fica às escuras perante a crise climática.
Fontes: DR; DGEG; REN; E-Redes; ERSE; IPMA; ICNF.
Imagem de destaque: Freepik.
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