A Agência Internacional de Energia IEA acaba de lançar o seu relatório mais recente, o “Global Hydrogen Review 2025“, fornecendo uma análise crucial sobre o progresso e os desafios do setor do hidrogénio a nível mundial. O documento confirma a crescente procura, mas alerta para o ritmo de desenvolvimento, que pode não estar à altura das ambições climáticas globais.
Procura Global de Hidrogénio em 2024: Quem Consome Mais?
Em 2024, a procura global de hidrogénio atingiu quase 100 milhões de toneladas. No entanto, este crescimento deve-se quase inteiramente ao consumo nos setores tradicionais, onde o hidrogénio é usado como matéria-prima há décadas.
Os setores da refinação de petróleo e da indústria química continuam a ser os grandes consumidores globais, demonstrando que a transição para o hidrogénio de baixo carbono nestas áreas ainda tem um longo caminho a percorrer.
Hidrogénio de Baixas Emissões: Crescimento é Visível, Mas Lento
Apesar do domínio do hidrogénio cinzento, a produção de hidrogénio com baixas emissões registou um crescimento notável de 10%.
Contudo, este avanço representa uma fatia mínima da produção total. Estima-se que a produção com baixas emissões atinja apenas um milhão de toneladas em 2025, o que significa que continua a ser responsável por menos de 1% da produção global de hidrogénio.
Por que o Ritmo da Transição Está Lento?
O relatório “Global Hydrogen Review 2025” salienta que o desenvolvimento do setor não está alinhado com as metas climáticas estabelecidas no início da década. Três fatores principais contribuem para este atraso:
- Elevados Custos: A produção de hidrogénio verde (via eletrólise) e azul (com CCS – Captura e Armazenamento de Carbono) ainda exige um investimento inicial e custos operacionais elevados.
- Incerteza da Procura: A falta de clareza sobre os mecanismos de apoio e a procura futura por parte de setores como a indústria pesada ou o transporte marítimo trava as decisões de investimento.
- Atrasos em Projetos e Infraestruturas: Os projetos enfrentam atrasos no licenciamento, na obtenção de financiamento e na construção de infraestruturas de transporte e pipeline.
A IEA prevê que, apesar dos desafios atuais, a produção de hidrogénio com baixas emissões aumente cerca de cinco vezes até 2030, passando de menos de 1% para aproximadamente 4% da produção total.
Nota: CCS é um conjunto de tecnologias projetadas para mitigar o aquecimento global, capturando o dióxido de carbono CO2, emitido por grandes fontes industriais e de energia e armazenando-o de forma permanente no subsolo, impedindo que chegue à atmosfera.
Líderes Mundiais e Potenciais Setores de Adoção
O relatório identifica os principais players no mercado global do hidrogénio:
- Liderança na Oferta: A China consolida a sua posição como líder mundial em termos de capacidade instalada de eletrólise e na produção de eletrolisadores (o equipamento necessário para produzir hidrogénio verde).
- Impulso na Procura: A Europa, a Índia, o Japão e a Coreia do Sul destacam-se na implementação de políticas públicas e mecanismos para estimular ativamente a procura de hidrogénio e derivados.
Entre os setores com maior potencial para a adoção de combustíveis à base de hidrogénio, o transporte marítimo é apontado como um dos mais promissores, devido à dificuldade de eletrificação total.
Portugal em Destaque: O Pioneirismo do Leilão CfD – Contratos por Diferença (Contracts for Difference)
O relatório da IEA dedica um espaço à política de hidrogénio renovável em Portugal, destacando um mecanismo financeiro pioneiro: o primeiro leilão two-way CfD (Contract-for-Difference) para hidrogénio renovável, concluído em fevereiro de 2025.
Este esquema, que fornece uma garantia de preço estável para os produtores, selecionou oito projetos, com uma capacidade total de 120 GWh/ano (equivalente a cerca de 3,6 ktpa).
Com um orçamento de 140 milhões de euros e contratos com a duração de 10 anos, esta iniciativa portuguesa representa cerca de 3% da procura nacional atual de hidrogénio, posicionando o país na vanguarda da criação de mecanismos de apoio robustos para a transição energética.
Nota: O CfD é um contrato financeiro de longo prazo entre o produtor de energia (ou hidrogénio) e uma entidade pública (geralmente o Estado ou um operador de mercado designado). O seu objetivo principal é garantir um preço estável ao produtor, protegendo-o da volatilidade do mercado e, ao mesmo tempo, protegendo os consumidores de preços excessivamente altos.
Conclusão: Hidrogénio – O Fator Crítico da Próxima Década
O relatório “Global Hydrogen Review 2025” da IEA traça um quadro de otimismo cauteloso. É inegável que a tecnologia de hidrogénio renovável está em crescimento, impulsionada por um aumento de 10% na produção de baixas emissões, mas a realidade é que o seu contributo para a procura total se mantém marginal.
O grande desafio da próxima década não é tecnológico, mas sim económico e regulatório. Os projetos continuam a ser estrangulados pelos elevados custos, pela insegurança da procura futura e pela lentidão no licenciamento de infraestruturas essenciais CCS e transporte. Sem a rápida superação destes obstáculos, a meta de que o hidrogénio de baixas emissões represente 4% da produção até 2030 estará seriamente em risco.
Neste contexto, o pioneirismo de Portugal, com o seu leilão Two-Way CfD em 2025, assume um papel crucial. Ao mitigar o risco de preço para os investidores, Portugal demonstra a via regulatória necessária para desbloquear o capital privado.
O hidrogénio é um pilar insubstituível da transição energética para descarbonizar a indústria e os transportes pesados. O sucesso global dependerá da capacidade de mais países replicarem estes mecanismos e de transformarem as promessas de hidrogénio em projetos viáveis e operacionais na rede.
Consulte o relatório completo em:
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